“CURSO PARA ARQUIVISTAS” – CIMBRA

Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro – 17 a 21 de outubro de 2016

CRÔNICA

Na semana de 17 a 21 de outubro de 2016, os arquivistas dos mosteiros de diversas comunidades monásticas do Brasil reuniram-se no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro no I CURSO PARA ARQUIVISTAS, promovido pela CIMBRA – CONFERÊNCIA DE INTERCÂMBIO MONÁSTICO DO BRASIL .

O encontro iniciou-se na segunda-feira, 17, à tarde, com as palavras de acolhida pelo Abade Presidente da Conferência Beneditina do Brasil e abade do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, D.Filipe da Silva, OSB, e os representantes da CIMBRA, Madre Maria Regina Silva, OSB, abadessa do Mosteiro de Maria Mãe do Cristo, Caxambu (MG) e D.Osvaldo Cássio Batista,OSB, sub-prior do Mosteiro de São Bento em Vinhedo.

D.Abade Filipe recordou a importância dos arquivos em nossas comunidades, a sua atualização e conservação. “Neles se encontra toda a história de nossos mosteiros, dos nossos monges e monjas, e também da sociedade, da cultura, da época”, afirmou. Ele anunciou o início do processo de canonização de D. Estevão Bettencourt, OSB, monge do Mosteiro do Rio, professor e grande formador e apologista da Igreja Católica. No dia 14 de outubro, foi entregue na Cúria Metropolitana da Arquidiocese do Rio de Janeiro as assinaturas dos que desejam a abertura do processo. “Agora vai se criar uma comissão que analisará todos os documentos, escritos, testemunho e trabalhos do saudoso D.Estevão. Neste processo todo e qualquer documento é precioso. Até mesmo um bilhete...”, enfatizou.

Madre Maria Regina deu as boas-vindas aos participantes em nome da presidente da CIMBRA Madre Vera Lúcia Parreiras Horta,OSB e agradeceu o acolhimento já característico do Mosteiro do Rio e a disponibilidade do arquivista do mosteiro e da Congregação Beneditina do Brasil, D.Pascoal de Biase Quintão, OSB, palestrante e organizador do curso.

Estavam representadas 12 comunidades femininas: Mosteiro da Santíssima Trindade, Santa Cruz do Sul (RS); Mosteiro Nossa Senhora da Paz, Itapecerica da Serra/SP; Mosteiro de Nossa Senhora da Glória, Uberaba (MG); Mosteiro Mãe de Deus, Diamantina (MG); Mosteiro de Maria Mãe do Cristo, Caxambu (MG); Mosteiro da Virgem, Petrópolis (RJ); Mosteiro do Encontro, Mandirituba (PR); Mosteiro de Nossa Senhora da Graças, Belo Horizonte (MG); Mosteiro de São João, Campos do Jordão (SP), Mosteiro do Salvador, Salvador (BA), Mosteiro de N.Sra. da Vitória, Juazeiro do Norte (CE); Carmelo de Santa Teresa, Rio de Janeiro (RJ); e 6 comunidades masculinas: Abadia de N.Sra.do Novo Mundo, Campo do Tenente (PR); Mosteiro de São Bento, Garanhuns (PE); Mosteiro de São Bento, Olinda (PE); Mosteiro de São Bento, Brasília (DF), Mosteiro de São Bento, Vinhedo (SP).

Tivemos a alegria de contar com a presença de duas monjas do Carmelo de Santa Teresa, gentilmente convidadas pela Diretoria da CIMBRA e pelo Mosteiro do Rio para participarem do curso. Enriquecedor, já que pudemos trocar experiências com outras realidades monásticas.

Acolhimento fraterno

Os 26 participantes foram muito bem acomodados em Emaús, a hospedaria do Mosteiro. As conferências proferidas no Auditório, climatizado com a temperatura amenizada pelo ar condicionado, já que naquela semana os termômetros registraram aproximadamente 35 graus na capital carioca, ocuparam as manhãs e tardes de toda semana.

Tivemos a oportunidade de fazer as refeições com os monges da comunidade, já que a cozinha e o refeitório do mosteiro estavam em reforma. O silêncio e a leitura nos ajudaram a criar um ambiente ainda mais fraterno, remetendo ao costume vivido em nossas comunidades, agora na presença de tantos irmãos e irmãs nossos. As orações na igreja abacial também foram momentos fortes de louvor e vivência fraterna, no ofício divino tão acolhedor e orante da comunidade do Rio de Janeiro.

Vale lembrar a disponibilidade de D. Mauro Fragoso,OSB, que na manhã do dia 17, acompanhou um grupo de irmãos e irmãs que já haviam chegado para uma visita monitorada à igreja abacial totalmente restaurada. Uma aula de história, arte e arquitetura... Durante a semana, D.Mauro levou o grupo restante e depois todos os participantes tiveram a possibilidade de realizar uma visita à clausura guiada também por ele. Séculos retratados na beleza e em cada detalhe contados pelo monge historiador e que nos levou a conhecer um pouco mais a história do cenóbio carioca.

Assim pudemos unir os “arquivos vivos” expressos nas paredes do mosteiro com as aulas práticas e teóricas sobre a Arquivologia, ministradas por D. Pascoal. Depois de uma explicação sobre o surgimento dos arquivos e o desenvolvimento da ciência que os desenvolvem, os termos técnicos, o conferencista lembrou que a memória histórica faz parte da vida de cada comunidade. “As crônicas de um mosteiro não relatam somente a história da comunidade, mas também temos uma visão da história da cidade, do país, através do cronista. Um documento a princípio interno vale para a história da Igreja no Brasil”, exemplificou. A memória humana é o primeiro arquivo da humanidade!

Um pouco de história

No segundo dia de aula, foi tratado especificamente o arquivo beneditino. Se analisarmos a Regra de São Bento, veremos que trata da Carta de Profissão em RB 58,29, o cuidados com as ferramentas e objetos do mosteiro em RB 32, uma menção implícita de certa forma aos arquivos. A carta de profissão inaugura o acervo do monge e da monja!

D.Pascoal destacou que na Constituição de 1590, já havia regras para o arquivo do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro. E na de 1629, diz-se que “a chave do arquivo será entregue pelo Abade ao monge escolhido”.

Nas Constituições de 1976 e 1994, há uma maior autonomia para reger os arquivos e em 1973 é criado o Arquivo da Congregação Beneditina do Brasil no Mosteiro no Rio, sob os cuidados do saudoso D.Mateus Rocha,OSB. Em 1999, definem-se os atributos do Arquivo da Congregação.

A partir desta introdução histórica, D.Pascoal tratou das diversas etapas na organização do arquivo, desde a política de aquisição e descarte, especificação dos setores, documentos administrativos até o arquivo pessoal de cada irmão ou irmã. Alternadamente, sempre após as explicações, tivemos as aulas práticas, como guarda e higienização dos documentos, conservação e preservação, classificação e indexação.

Na quarta-feira, 19 de outubro, tivemos pela manhã a notícia da páscoa do artista sacro e oblato do Mosteiro Nossa Senhora da Paz, Cláudio Pastro, o que muito sensibilizou a todos, já que era muito ligado a quase todas as comunidades presentes e pelo legado de sua obra. Constatamos que a maioria das comunidades representadas tinha alguma história ou ligação com Cláudio ou possuía alguma obra sua. Acompanhamos as informações sobre as exéquias e o sepultamento através de duas irmãs do Mosteiro Nossa Senhora da Paz, presentes no encontro. Pastro foi sepultado neste mosteiro, como era seu desejo. Em nossas conversas, recordamo-nos dele e fizemos uma “memória viva” deste tão grande artista que embelezou tantas de nossas igrejas e que com sua arte, aproximou-nos e ainda aproxima ainda mais do Mistério!

 

Transmissão, atividades e agradecimentos

20 de outubro, quinta-feira, Dia do Arquivista. Neste dia, D.Pascoal tratou dos acervos pessoais, incluindo desde documentos religiosos, correspondência ativa e passiva, bem como toda a produção do monge e monja. Nesta aula, separamos e identificamos alguns documentos D. Irineu Penna relativos ao seu ofício como professor de matemática no Colégio de São Bento. Foram selecionadas também cartas de D. Abade Martinho Michler,OSB.

Nada como a imagem, um retrato, que fala por si só. Também acompanhamos o processo de arquivamento de fotografias, desde sua seleção, descrição, microfilmagem e digitalização. Nesta hora, a aula rendeu, pois grande o entusiasmo e curiosidade para identificar lugares, antigos monges e monjas da história monástica no Brasil!

Caminhando para a reta final do curso, tivemos uma palestra com a Museóloga consultora, Maria de Lourdes Parreiras Horta. Nome conhecido? Sim, ela é prima de nossa Madre Vera Lúcia, presidente da CIMBRA e abadessa do Mosteiro do Salvador. Não vimos a hora passar! Uma conferência viva e interessante. “Leitura, Patrimônio e Meio Ambiente” foi o tema de sua apresentação. Conhecemos um pouco de Semiótica, de organização dos museus e do trabalho desenvolvido por ela no Museu Imperial, em Petrópolis, entre tantos outros trabalhos e estudos.

A visita monitorada por D.Pascoal ao Arquivo do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro concluiu o curso na manhã da sexta-feira, 21. Depois de um breve histórico, percorremos as instalações. O arquivo encontra-se fora da clausura, perto do colégio, o que facilita o acesso de pesquisadores. Esta é a sua sétima sede, estando lá desde 2013. Curioso, mas o arquivo já passou por dois incêndios e chegou até a ficar embaixo de uma caixa água. Atualmente antes de entramos no espaço, temos a bela vista da Baía de Guanabara e do Museu do Amanhã!

Documentos e fotografias foram expostos para nossa apreciação e consulta. O documento mais antigo do acervo é de 25 de março de 1590, portanto há 426 anos! O primeiro índice dos documentos é de 1682. Ali também se encontram os arquivos da Congregação Beneditina do Brasil e da CIMBRA. Antigos álbuns de fotos, documentos, produções de D.Marcos Barbosa e D.Estevão Bettencourt, tudo diligentemente preservado e conservado sob a orientação de D.Pascoal e de um funcionário.

Mas o passeio pela história ainda não tinha terminado. Na sexta-feira à tarde, D.Abade Filipe ofereceu-nos uma visita ao Museu do Amanhã, “vizinho” ao Mosteiro do Rio. Dos arquivos à memória virtual, à descoberta da natureza e como será o futuro de nosso planeta, conscientização e aprendizado sobre a conservação do meio-ambiente e ecologia. Momento fraterno e de conhecimento!

Mais uma vez o nosso agradecimento ao Abade Presidente D.Filipe da Silva, à comunidade do Mosteiro do Rio, de modo especial, a D.Pascoal, por todo empenho e esforço na organização do curso, às nossas comunidades e à Diretoria da CIMBRA, que nos ofereceram esta oportunidade!

Realmente tivemos uma semana rica de convívio fraterno, conhecimento e descobertas que ficarão guardados nos arquivos da memória de cada um e que nos ajudarão a construir, conservar e preservar a própria história de nossas comunidades, para transmiti-las às gerações futuras como nos tem sido transmitido ao longo dos séculos! Tradição que permanece no hoje de nossa história!

Cronista

CIMBRA – Conferência de Intercâmbio Monástico do Brasil

III Semana do Tempo Pascal – abril de 2017

U.I.O.G.D.